sexta-feira, 7 de junho de 2013

William Wilson: literatura e psicanálise.



"E tudo nele, da roupa até as feições do seu rosto, era eu. A mais absoluta identidade. Era o próprio eu. Era Wilson. Mas falava. Não mais num sussurro. Mas como eu próprio, com minha voz, minhas palavras, minhas idéias, minha emoção. Minha agonia. Minha morte." (E. A. Poe)


Eis um fragmento do fim  da curta história William Wilson publicado em 1839 por Edgar Allan Poe na Burton's Gentleman's Magazine - revista inglesa de época. Como a maioria dos contos de Poe - e o número não é baixo - trata-se de uma história que aprisiona o leitor do início ao fim , porém não com o mesmo suspense de O coração delator de 1843, nem com o terror inteligente e investigativo de Os assassinatos da Rua Morgue publicado pela primeira vez na Graham's Magazine em 1841, tampouco com a filosofia de Deus, a revelação magnética o último conto de uma compilação de contos que possuo, traduzida como Histórias Extraordinárias de 1995. 

Este dessa vez, aborda genialmente a questão do Duplo, e Poe se vale deste fenômeno psicológico para criar as situações mais tenebrosas e instigantes. Obviamente este tema desde as tragédias gregas foi recorrente, a exemplo das peças Aristófanes e Plauto que traziam aos palcos dos Anfiteatros o "gêmeo" pela primeira vez. O próprio Wilde por meio de sua paixão por retratos e quadros tratará mais tarde do mesmo assunto em seu O retrato de Dorian Gray de 1890.

No entanto, há diferenças gritantes entre o conceito dos Duplos no teatro grego, nas histórias de Oscar e para Allan Poe. Enquanto que no teatro a réplica ameaçava o Eu se manifestando como seu lado antagônico e antitético, para Dorian Gray a pinturas e fotografias aprisionavam em si uma parte da vitalidade, da alma, dos sentimentos do Eu real. Para Poe, não. Ao contrário do que Freud analisará em sua obra O Estranho de 1919 a questão do Duplo, ou Duplicata surgirá a partir de experiências sensíveis de horror de alguma situação externa ao sujeito e que o fará projetar seus temores em um personagem. 

É o que Freud chama de "unheimlich", que no português aproxima-se de "algo não-familiar", ou seja estranha, incomum, sem conceitos prévios, o que se distancia do conceito de Mesmo, e que se aproxima mais dos arquétipos de Wilde, pois o horror dos personagens nasce da incapacidade do próprio reconhecimento de si no Outro duplicado, como se estivessem olhando no espelho, e fossem completamente dominados pelo reflexo, mas não se reconhecessem nele. 

Em William Wilson, que foi escrito muito antes da obra de Freud e de Wilde, há algo extremamente inovador: o personagem principal repudia as semelhanças com seu duplo, mas não as nega, e sua agonia nasce exatamente do incontestável poder dos fatos que lhe são apresentados. Além disso, possui tudo que um filho da aristrocacia inglesa poderia querer: posses, estudo nas melhores escolas, liberdade... Por que razão criar um alter-ego? A não ser é claro que sua existência o causasse náuseas:

Para muitos, Wilson e eu éramos amigos ou companheiros inseparáveis. É isso mesmo. Este estranho estado de nossas relações me favorecia os ataques. Ironias, pilhérias e tudo o que pudesse tocar os seus pontos fracos. Estes, eu tudo fiz para conhecer a fundo. E, conhecendo-os, pude usá-los sempre quis. Ele revidava, é claro. E também conhecia os meus pontos fracos. Sua própria existência e presença diária ali, no mesmo colégio que eu, já eram uma constante provocação. Sempre detestei o meu sobrenome vulgar e o prenome comum. Ora, a mim já bastava ser eu o portador de tamanha anti-patia.(página 113)

No final das contas a resposta é turva, pois o clímax da história trata-se da morte de William Wilson. Mas, não se sabe ao certo quem mata quem, ou se os dois - o original, ou a cópia - morrem juntos, e quem é, de fato, a cópia de quem. A questão é que, talvez o excesso de poder, de liberdade e de não haver forças opostas ao mundo do Wilson real o fizeram projetar alguém idêntico, não apenas nas feições, mas também com as mesmas habilidades físicas, possuidor de um intelecto extraordinário e de sagaz eloquência e postura. Qualidades que o egoísmo exacerbado do primeiro não poderia aceitar e ao mesmo tempo o exponenciam até o desfecho macabro:

- Venceste e eu me rendo. Contudo,de agora em diante, tu também estás morto... Morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu vivias... e, na minha morte, vê, por esta imagem, que é a tua própria imagem: assassinaste a ti mesmo!  (página 120)
Eu mesmo não saberia responder quem matou quem, mesmo supondo tais coisas. Talvez, nem o próprio Poe se se levantasse de sua tumba em Westminster na cidade de Boston poderia responder a tal questão. 

O fato é, que as réplicas tomam diversas formas, isso a literatura demonstrou sabiamente, e mesmo antes da própria psicanálise. Penso que a literatura é mais do que ficção obsoleta, ou leitura de lazer. A imaginação imposta para criar o fictício parte muitas vezes do desejo de fuga de uma sociedade, de fatos repetidos, do sentimento claustrofóbico em relação a uma época, da História que cria padrões sob conceitos fechados. Para tanto, é quase necessário falar do que se detesta para recriar seu mundo. Cabe ao leitor ter sensibilidade para localizá-lo.

Quanto a um conceito fechado sobre o Duplo... Bem, pode ser alguém que seja o oposto, pode ser uma pintura idêntica, pode ser um complexo produto de seu inconsciente, ou alguém de carne e osso exatamente igual, pronto para ocupar custe o que custar o mesmo espaço que você. Se você se identificou com o texto... quem sabe não sou eu uma cópia perfeita sua. Pense bem.

Caixa de Raiva - Parte I: Life is a tragedy


Um sangue espesso mistura-se com a água do esgoto, propiciando um líquido ironicamente homogêneo, enquanto aos berros um garoto é espancado por outros dois em frente ao Fine Arts Museum. Aquém desta situação - que aos olhos de algum nauseabundo religioso, ou mesmo das famílias tradicionais e escravas dos costumes mantidos intactos até as primeiras décadas do segundo milênio era inconcebível - podia se ver os olhares atenciosos de Harry e Suzy Smoother. O casal se mantinha atônito com os preços elevadíssimos do supermercado, se pudessem, consultariam suas Caixas cara a cara com o dono do estabelecimento. Porém, se sentiriam sujos de Raiva Ideal. Tomaram o caminho de volta para buscar mais dinheiro.

-Ei, meu amor que dia é hoje? Acho que é meu aniversário. Exclamava Harry com um sorriso sacana no rosto.

-Engraçadinho! Sempre com essa história. Pois, fique sabendo que não vou te dar mais presente algum. Argumentava Suzy enquanto cobria carinhosamente o rosto de Harry com as duas mãos.

Os dois viviam em Fort Point em uma casa relativamente confortável, e conforto em 2085 significava ter um teto, por mais que houvesse neste muitos buracos, logo goteiras irritantes. É que depois da Terceira Guerra Mundial a tecnologia avançara bastante, porém a propriedade física e privada já não era a principal preocupação do Estado, tampouco dos órgãos públicos.

Muito acomodados em sua cama de casal os recém-casados assistiam o noticiário da tarde no mais novo Computador de Lazer de Suzy.

Boa tarde. Hoje é dia de reavaliação. Você que adquiriu seu aparelho há mais de dez anos, deve se encaminhar aos postos credenciados pelo governo para fazer um check-up. Os postos possuem o símbolo do Punho Fechado para que os cidadãos não corram o risco de serem assaltados pelos Clandestinos. Hoje, também é dia de diversão. O Cinema...

-Não posso acreditar meu amor, vão passar aqueles desenhos animados que você adora e alguns filmes daquele diretor... Tarantigo, não é? Indagava Suzy com seu seco sarcasmo.

-Nós somos o único casal nesse mundo com bom humor? É Tarantino, minha pequena. E, obrigado por me avisar, vou... Fez uma pausa para pensar, e prosseguiu: Vou dar uma olhada nos preços e, se estiverem razoáveis, volto para te buscar. Está bem?

-Trato feito! Não demore, então.

-Beijos! Beijos! Dizia Harry daquela forma boba que apenas os apaixonados presumem entender.

Enquanto tomava o táxi que o levaria para perto do Nostalgic Movie and Entertaiment, Harry dividia sua atenção pelo cheiro agradável de novo do veículo, os buracos restantes nas ruas e os grafites nas paredes feitos pelas gangs de Chinatown: suas inspirações ficavam em alta toda vez que encontravam um cartaz de propaganda política do presidente Stuart ILL. A Raiva Ideal só podia se transformar em arte subversiva, visto que não podiam, segundo a nova legislação, liberá-la de forma física.

-Cabrones! O motorista sussurrou como se estivesse conversando consigo mesmo. Demonstrando a fragilidade de seu estado contido, logo se exaltou:

-Un montón de vagos, compadre! Gritava o taxista, deixando uma baba percorrer-lhe a barba.

Sem jeito, Harry fez sinal de positivo com a cabeça e apontou o lugar no qual gostaria de ficar. Pagou a corrida e saiu apressadamente, afim de não se atrasar para a primeira sessão.

Depois de comprar seu bilhete, já havia se passado exatos cinco minutos desde o começo de uma série de desenhos animados clássicos que sempre antecedia os filmes de época, uma estratégia dos Idealizadores para unir mais de um público no mesmo espaço e assim lucrar bastante. Harry ajustou-se desajeitadamente na poltrona, pôs seu refrigerante do lado direito e um enorme saco de pipoca entre suas pernas – uma mania que datava sua mais tenra infância – lançando um olhar penetrante e hipnotizado direto na tela.
"É a visão mais esplêndida que já vi!", "esse ratinho é um filho da mãe mesmo, vai jogar a bomba em cima do gato gordo", "nossa! Como o cinema está cheio hoje"... Tais pensamentos passavam pela mente de Harry, e desapareciam rapidamente por causa de sua paixão pelo cinema.

Gargalhadas enchiam o espaço toda vez que uma cena engraçada era apresentada, e no meio de um desses momentos de êxtase Harry virou a cabeça para o lado esquerdo da sala. Achou no mínimo curiosa a cena de um garoto muito jovem chorando ao olhar a mesma cena que fizera todos chorarem, mas de... Alegria, talvez.
Sua atenção foi roubada pela sensação de frio que o refrigerante derramado em suas calças suscitou. Neste momento, levantou a cabeça e olhou um homem alto e mal encarado gritando. O idiota percebeu que Harry estava em estado ponderante e resolveu jogar nele o restante da bebida.

- Ei, por que fez isso, babaca? Indagou Harry tomado de fúria.

- Sai da minha frente, bundão! Não está vendo que quero passar? Saia! Ordenou o estranho.
Harry não queria acionar sua Caixa de Raiva, porém pensou bem, afinal de contas se não o fizesse, não só ele, mas toda a sociedade poderia pagar com sua covardia.

Pôs seu dedo suado na máquina e apertou o botão vermelho localizado na parte traseira do aparelho. A invenção recolhia todos os dados da situação: as características dos indivíduos envolvidos no conflito, suas razões, se a raiva era, ou não uma Raiva Real, para somente depois dar o seu veredito. Uma tela mostrava o ícone de um cadeado abrindo, algumas máquinas, dependendo de quanto dinheiro se tinha até possuíam uma gravação de áudio para eventos banais, a máquina de Harry, porém era um tanto rústica. Coube-lhe ler atentamente as instruções:

"O indivíduo de nome Travis Fuzzy, código 025568, barramento 002, segundo o artigo 129, está perturbando e atrapalhando um momento de lazer e tempo livre, além de agredir fisica e verbalmente o indivíduo Harry Smoother, código 852694, barramento 512, sua penalidade..."  Um sorriso começava a estampar o rosto de Harry. Então, o veredito foi impresso.

"Dois socos na região nasal e um chute na região estomacal."

Harry levantou-se rapidamente e deferiu dois socos no rosto de seu alvo, aproveitou enquanto o mal educado se apoiava nas outras poltronas e completou com um chute em seu estômago. O indivíduo caiu se contorcendo ao chão. Todos continuavam assistindo tranquilos o desenho animado. O encrenqueiro nada podia fazer, pois as prisões ainda existiam e eram destinadas aos Clandestinos, pessoas que viviam de furtos, de alucinógenos, e o pior de tudo, utilizavam a Caixa para fins improdutivos.

Feliz por seus direitos cumpridos, Harry sentou-se cuidadosamente na poltrona. O filme já ia começar.
Horas depois, já na saída do cinema, Harry encontrou a mãe da criança que estava chorando, percebeu que ela falava em linguagem de sinais com o filho, então entendeu porque o menino chorava tanto. A verdade é que, como não podia ouvir os sons envolventes dos desenhos, as cenas de violência lhes eram brutais, tristes e irracionais. Porém, Harry não havia porquê se emocionar com tal acontecimento.

Ele era um daqueles admiradores dos hábitos dos antigos homens, por terem criado em seus objetos de consumo uma saída para suas mentes doentias, por isso não perdia a oportunidade de tentar entender como o mundo funcionava naquela época. O cinema era uma das criações que mais o intrigava. Chegava até a rir internamente da capacidade daqueles homens de simular neles mesmos sentimentos dos quais não tinham coragem de assumir, ou não lhes era permitido em meio à sociedade. Como um pecado de omissão. A raiva era um deles. Felizmente, para ele a civilização estava no caminho certo.

Porém, nem todos concordavam com a nova forma de Estado que surgira depois da terrível guerra entre Estados Unidos e a Coréia do Norte. A policial Eve Jones era um caso curioso em meio ao sistema vigente. Há 10 anos havia se casado com o, então amor de sua vida, o chefe de polícia Bill Suffer com quem tivera dois filhos e desconfiava estar grávida do terceiro. Eve estava feliz com o casamento, até descobrir no marido uma tendência à agressividade descomunal. Esse detalhe não seria ruim dado o momento histórico, porém todas as vezes que Eve acionava sua Caixa de Raiva, os enquadramentos adicionavam mais e mais irregularidades ao comportamento de Bill, e proporcionalmente recomendava que Eve tomasse as devidas providências, sendo estas completamente ignoradas.

 "Máquina imbecil, você não sabe coisa alguma sobre sentimentos", "esse Presidente é realmente um monstro por ter legalizado isto!", "como poderia machucar o amor da minha vida?". Eram os pensamentos diários de Eve todas as vezes que olhava para sua Caixa, localizada no lado direito de sua cintura. "Meu Deus, o que vou..."

- Mamãe, que marcas são essas em seu braço? Perguntava seu filho mais novo, John Suffer de oito anos, interrompendo um momento de conflito interno da mãe.

- É só um sinal, filhote! Respondia constrangida.

- Já está tarde, John! É hora de ir para a caminha, mocinho. Amanhã você tem escola, lembra?

- Ah! Essa não. E saiu correndo pela escada, sorrindo. Eve, então entrava propositalmente na brincadeira, perseguindo-o até seu quarto, deixando escapar um choro tímido.

Eve desejava que suas lágrimas fossem apenas de tristeza, ou de felicidade pelo menos uma vez, porque pensava não existir algo mais destrutivo do que cair em prantos sem saber exatamente a razão pela qual elas molhavam seu rosto. Como um sentimento inominável.

Cansada, depois de um dia inteiro de trabalho deitou-se na intenção de esperar Bill, de repente até fazer amor do jeito que ele tanto gostava e contar-lhe sobre sua possível gravidez. Tirou sua saia cinza-grafite de tecido brocado curta, guardou seu blazer preto e pôs uma leve camisola de seda. Um sono profundo apoderou-se dela.

Horas depois, Bill bate a porta.

Roupas surradas, e um odor insuportável se manifestavam através de seu corpo. Seu hálito denunciava mais uma noite de orgias e bebedeira no Hot Hell, um bordel de quinta categoria localizado na Charles Street, frequentado pelos mais prestigiados homens de bem. Bill costumava ser assíduo, no entanto, antes para conseguir contatos de pessoas influentes. Seu foco mudou completamente depois de dar uma boa olhada nas moçoilas da casa, principal produto de consumo.

- Abra essa porta, Eve! Abra! Batia violentamente o bêbado, imaginando ser aquela superfície de madeira o rosto de sua esposa.

- Abra vaca maldita!

Eve deu um pulo ao ouvir as batidas do marido à porta. Cobriu-se e desceu tão rápido que quase torce seu pé esquerdo na escada.

Mal abrira a porta e Bill lançou as duas mãos sem seu pescoço.

- Nã... na.. nã-o, a-am... Amor! Amo-or-or? Implorava Eve desesperada.

- Cala sua boca, odeio sua voz. Jogou-a em cima de um cômodo de madeira, fazendo com que ela machucasse o rosto.

- Durma no sofá, não quero dividir a cama com uma mulher tão feia quanto você. Queria uma daquelas gostosas... Gostosas.

Eve esfregava seu rosto ao chão como se ali pudesse encontrar alguma resposta. Olhava para o teto como se Deus estivesse ali e aquele fosse seu Céu particular. Infelizmente não obteve nenhuma resposta.  A ferida em sua face não significava nada perto do horrível sentimento que aquelas palavras suscitaram em seu orgulho. Então, como em algum tipo de oração, acionou o botão vermelho da máquina.

"O indivíduo de nome Bill Suffer, código 212352, barramento 884, segundo os artigos 124, 125 e 139, agrediu o indivíduo Eve Suffer, código 789654, barramento 566, impediu o nascimento de um ser sem o consentimento da mãe, e a difamou inescrupulosamente, a pena para este crime: Amputar-lhe o..."

Eve jogou a máquina para longe, evitando ler o veredito. As folhas não paravam de ser impressas pela Caixa de Raiva, que enfeitava o chão com a frase em letras garrafais: AMPUTAR-LHE O ORGÃO SEXUAL.

O que seria uma noite de entrega sem restrições ao marido, se tornou o verdadeiro inferno. A policial desabou em lágrimas sinceras ao ver uma marca de sangue por entre suas pernas, e mal conseguia pensar na ironia da situação, pois aquele líquido carmesim geralmente associado à vida, não passava da prova mais cruel de existência da dor e da morte.

A Caixa de Raiva fora desenvolvida em um momento em que os seres humanos estavam cansados das guerras que minavam a vida de milhares de pessoas fossem elas próximas, ou não. O presidente Stuart ILL, um ex-cientista e também psiquiatra, antes mesmo de ser eleito, observava que as nações envolvidas em todas as guerras da história nunca determinavam um ataque antes de munir umas pelas outras, certa quantidade de ódio, porém um ódio que somente era possível por causa da inveja, da cobiça por algo que lhes era interessante, e que as conectava. Foi, então que percebeu algo espantoso: O ser humano, observou ele, possui tanto a capacidade de amar, como odiar de forma inerente, e isso é óbvio. A novidade é que o ódio, assim como o amor também nasce de uma necessidade de compartilhamento. Tal como o amor, se esse ódio não for liberado de forma proporcional e legítima pelo próprio indivíduo, este enquanto engrenagem do bom funcionamento, não apenas da ordem, mas da própria força produtiva que mantém a sociedade, desfaleceria. A raiva não nasce do caráter instintivo do homem, mas racional e devia ser aplicada legalmente através de um aparelho que educasse os cidadãos a serem eles mesmos seus próprios juízes e réus. Ao aparecer nos programas políticos com a promessa do novo invento e de suas propostas de reformulação legal, a maioria tomada pelo patriotismo, e desejo ardente pelas benesses da "autonomia" fez questão de votar nele e influenciar a opinião pública para o mesmo.

Com a vitória de ILL, como em uma rápida piscadela, os aparelhos estavam sendo testados em laboratórios, patrocinados por empresas de softwares, e por fim vendidos.

Por: Tonny Araujo



Caixa de Raiva - Parte II: Don’t bite the heart!

De um enorme arranha-céu construído na Pensilvânia Street em Washington, edificado sob as ruínas da Casa Branca, qualquer cidadão que, por um segundo se quer parasse para vislumbrar a magnitude da construção, podia olhar também a figura de Stuart ILL, um homem comedido, tendo conseguido a façanha de ter poucos comentários arrogantes seus arquivados pela mídia.

Stuart, não obstante aqui não se faça uma descrição minuciosa sobre seus gostos e traços físicos, era amante dos cavanhaques e dos charutos Davidoff, motivo pelo qual comprara as ações de quase todas as fábricas deste na Rússia.

-Sabe por que detesto filosofia, Chief? Sabe, não sabe?

Chief era o vice-presidente e estava aguardando Stuart sair de perto da vidraça e se virar para poder tratar de assuntos burocráticos. Surpreendido com a indagação, respondeu:

-Ora, senhor Presidente, acho que é algo inevitável. Filosofar...

-Sim, sei que é preciso. Interrompeu. – Não foi isso que perguntei. Bem, é injusto cobrar de você o meu ponto de vista, mas deixe-me explicar, sim?

-Estou curioso, senhor. Por favor.

-Veja bem, todos os filósofos que existiram nesse mundo-cão descobriram coisas incríveis separando um tempo significativo para transformar bobagem em hipótese, e daí axiomas. Certo?

-Acho que sim, senhor. Mas o que...

-Vivemos em um momento em que não se tem tempo para bobagens. Não se tem tempo para pensar em um mundo sub e supralunar. Temos?

-Não, senhor. Instigado pelo desafio repentino proposto e pelo desejo de parecer eloquente, Chief prosseguiu  - Mas, se odeia tanto essa tal falta de utilidade da filosofia, por que está filosofando?

-Exatamente. Este câncer nos impeliu durante toda a história a acreditar que nos daria a liberdade se a perseguíssemos, se lhe déssemos credibilidade, e para que? Para nos tornar escravos.

-Nunca tinha parado para pensar nisso. Refletiu Chief, um pouco embaraçado e confuso.

-Não importa. Mas, perceba que se há uma saída deste labirinto, seria combater fogo contra fogo.

-Voltei a não entender absolutamente coisa alguma, senhor. Disse o vice-presidente franzindo o cenho.

-Quando criei a Caixa de Raiva me deparei com uma pergunta: "toda raiva nasceria e terminaria somente no ato imediato da agressão?" A resposta que obtive foi "não". Então, filosoficamente, percebi que há uma espécie de conflito entre seres humanos através da mente. O que chamo de Raiva Ideal.

-Sim, sim, naturalmente.

-Esse é um tipo de raiva que cresce ou decresce causando consequências imprevisíveis à sociedade e ao indivíduo.

-E como controlá-la?

-Com filosofia: a prisão mais convincente que existe. Respondeu o presidente, dando uma baforada na vidraça.

-Paradoxal, não acha?

-Isso também é baboseira da filosofia. Escute, as leis que criei controlam os desejos de manifestação de raiva através de leis objetivas. As pessoas que adquirem a Caixa têm mais do que a possibilidade de liberá-la, têm a possibilidade de consumi-la. Os pobres demônios que trabalham muito, mas não têm essa condição, morrem por canalizar dentro de si o pior estado que a Raiva Real pode ter: a Raiva Ideal. Não há nada pior do que algo mal resolvido dentro de si próprio, não é mesmo?

-E ainda assim, odeia a filosofia? Isso para mim parece brilhante. Sabe senhor, para falar a verdade, nunca imaginei que filosofar fosse tão produtivo, senhor.

-Viu? Sempre quem fica com os créditos é a maldita filosofia. Sorriu e sentou em seu assento.

-Bem, senhor toda essa conversa é interessante, mas venho tratar de outros assuntos. E aviso que é de seu pleno interesse.

-Prossiga.

-Fred Jobs foi solto.

Um tom amarelado e um suor de forma ininterrupta começaram a possuir a pele de Stuart por causa daquela informação dada com tanta objetividade.

Fred Jobs havia trabalhado em conjunto com Stuart na construção da Caixa de Raiva, porém sua paixão pela tecnologia herdada do avô, Steve Jobs, tomaria rumos completamente diferentes.

Stuart notou que Fred possuía algum tipo de distúrbio em um dos almoços no Parker’s Restaurant onde costumeiramente realizavam suas reuniões para discutir os avanços do projeto. Em um dos momentos do diálogo, Fred defendeu apaixonadamente a ideia de que deveria ser adicionado um dínamo interconectado entre a máquina e o córtex cerebral, enviando cargas elétricas mais fortes do que as enviadas pelo cérebro, que modificassem automaticamente os sentimentos e comportamentos dos indivíduos. Impelindo-os à inevitável e total eliminação uns dos outros.

-Está louco? Indagou-o, Stuart, espantado naquele dia – O que você é, algum tipo de anarquista cibernético?

-Sabia que ia discordar. Mas pense no progresso que iriamos fazer. Àqueles que sobrevivessem aos comandos, seriam os mais aptos a estar sob nosso controle e cumprir nossas ordens com plena eficácia, Stuart. Você nunca mais voltaria a comer bife com fritas, motherfucker.

-Até outro dia Fred. Tenho alguns assuntos a tratar...

-Espere ainda não terminei!

-Até!

Despediu-se ILL, que mais tarde iria contatar o FBI, denunciando anonimamente seu sócio de terrorismo. Quando as autoridades chegaram a seu apartamento, além de vários equipamentos eletrônicos e armas desmontadas, Fred teve a grande má sorte de estar fazendo um "lanchinho" neste mesmo dia. A droga foi apreendida, Fred preso e sentenciado em 20 anos na Red Rock Correctional Center da qual foi solto por bom comportamento, cumprindo, apenas pouco mais que um terço da pena. Isso claramente arquitetado desde o instante em que as algemas frias apertaram seus pulsos.

Ano após ano, Fred canalizara dentro de sua mente perturbada uma grande quantidade de Raiva Ideal através de uma frase que de maneira monologada, retumbava em sua cabeça: "A diversão do homem é o inferno de outro", "a diversão do homem é o inferno de outro", "a diversão... do homem..." Sentado no meio da cela e paralisado pelo ódio, este mantra funesto garantia-lhe um sentido vital, lembrando a angustiante existência dos entediados e ansiosos.

- Calma, senhor, o tempo que este sujeito ficou detido deve ter lhe ensinado qual é o seu devido lugar. Pode ter certeza, senhor.

- Chief, você, às vezes é tão ingênuo.

- Mas senhor?

- Reforce a segurança. Rápido.

Passaram-se exatos seis meses desde que o presidente Stuart ILL e seu vice-presidente Chief Lester tiveram aquela conversa. Porém, tanto tempo era o bastante para que o cotidiano corrido propiciado pelas suas tarefas políticas os fizesse esquecer o perigo eminente que rondava os Estados Unidos.

À beira do final de Abril, um clima pesado envolvia a cidade de Boston. Chuviscos prediziam o desabar de um temporal, e a fumaça obscurecida dos carros a diesel se misturava com o aspecto apocalíptico da chuva torrencial que viria. Enquanto alguns se deliciavam com um jogo de futebol americano [1] entre times clássicos, algumas pessoas se preocupavam em construir seu futuro, estudando, trabalhando, ou fazendo exatamente o contrário.

O dono de um bar limpava o balcão atento aos movimentos do Dallas Boys, e tinha tanta confiança na vitória de seu time predileto que se iludia achando ter previsto todos os movimentos. Depois que estes aconteciam, claro.

- It’s your lasttrying, Bob. Marque esse touchdown, seu filho da mãe. Exclamava ele como se o jogador o estivesse ouvindo.

Faltavam apenas trinta segundos para o fim do jogo entre o Sharks e o Dallas Boys com vantagem de um ponto de diferença para os Sharks, se Bob conseguisse passar pelos gigantes da defesa e marcasse os dois pontos os Dallas levariam essa.

Vinte segundos para terminar o jogo. Os jogadores já estão em suas devidas linhas.

Quinze segundos. O Quarterback grita a jogada e lança a bola. Dez segundos. Bob agarra a bola. Nove segundos. Passa pela linha de defesa. Cinco segundos, esquiva de quase todos os linebackers, e é atingido na perna direita por um deles, caindo depois da linha com a bola na mão.


Fim de jogo. O Dallas Boys era vencedor.


Um grito histérico percorreu o quarteirão inteiro e em conjunto o som de um tiro foi abafado. Quando os torcedores do time vencedor saíram às ruas para festejar presenciaram uma cena jamais prevista: Uma garota em pé em frente ao corpo de seu namorado segurava uma arma na Harvard Square. Um silêncio desconcertante tomara o lugar do frenesi dos fanáticos.


Pouco a pouco as expressões de espanto se modificavam, e uma apatia pairava sobre o ambiente. Não tardou para que empurrões e insultos acontecessem. Se estapeando, torcedores do time adversário cruzavam uma rua em frente, e foi o bastante para que um ódio descontrolado se apoderasse daquela situação. Os policiais que chegavam, à priori para evitar aquele banho de sangue, começavam a sentir prazer na cena e entraram na briga também. Olhos vazados, pernas baleadas, faces quase totalmente desfiguradas e um saldo de mortos assombroso, foi o resultado daquela tarde enegrecida.


Mais tarde o Celular Presidencial vibraria.


- Stuart ILL, pois não? Em seguida uma voz rouca respondeu:


- Curioso. Em outros tempos uma secretária me atenderia, diria que você está muito ocupado em uma reunião de negócios, quando na verdade estaria transando com você, meu caro ILL. O presente é mesmo brilhante. Mas nosso futuro está apenas começando.


- É você, Fred? Seu desgraçado. Foi você o responsável por aquela chacina, não foi? Seu monte de merda.


- Não, não fui eu. Na verdade, fui eu sim. Desenvolvi um vírus...


Enquanto Stuart falava com Fred, tentava se comunicar com o FBI.


- Tomei a liberdade de batizá-lo. Chama-se Húbris. Gostaria de te falar mais a respeito, mas tenho muito trabalho a fazer. Lembra-se dos Clandestinos que prendeu? Bem, muitos deles compactuam com este profeta.


- Do que você está falando seu doente mental?


- Bom, tenho muito trabalho pela frente...


- Espere.


- Arrivederci.


- Espere maldi... Era tarde demais.


- Droga. "Não consegui falar com o FBI".

Lamentou e lamentaria Stuart durante todo o dia.

Nas esquinas da cidade, podia se ouvir um clamor fervoroso e emotivo, destilando doses de otimismo, como uma vacina espiritual.


Cidadãos americanos é preciso ter fé em nosso Senhor, pois são chegados os últimos dias. Mais de 15% de nossos irmãos tiveram as vidas ceifadas por Satanás. Oremos pelas almas de nossos entes que se foram e tenhamos piedade dos pecadores. Gostaria que orassem também pela vida deste pastor, pois ontem à noite... assassinei meus dois filhos sem saber o mo... O motivo. Acho que fui possuído pelo mal, meus irmãos. Mas minhas lágrimas não vão trazer meus filhos de volta, não é mesmo? Ore...Mos. Senhor tende piedade...



Fred Jobs conseguira ter acesso ao Computador Cabeça sem muito esforço. No começo do projeto das Caixas de Raiva tudo o que menos queria era um aparelho que inspecionasse todas as atividades dos demais dispositivos e pudesse fazer a manutenção de suas informações legais, no entanto como precisava que Stuart vencesse as eleições para dar continuidade ao projeto, não fez objeção alguma. Embora, não tenha chegado a trabalhar no Computador, lembrava que no projeto, ILL o havia apresentado as bases propostas do protótipo, e eram tradicionalmente as mesmas de um computador comum, a única ressalva era que este possuiria um programa avançado que arquivaria todas as informações realizadas pelas Caixas através da ajuda de um nano chip.


O que Fred tinha que fazer era obter o IP do Computador, o código de segurança e implantar um vírus que fosse enviado às máquinas dos cidadãos, em vez dos reparos teóricos do Computador. Foi o que fez. Mesmo os profissionais que ficavam encarregados da segurança do Computador Cabeça não sabiam o que estava acontecendo.


Foi, então que um medo extremo e sem precedentes tomou conta dos Estados Unidos.


O sistema que antes era visto como perfeito e o ápice da civilização, agora estava provando o gosto amargo da decadência. Os telejornais tentavam em vão acalmar os cidadãos, pois mesmo os apresentadores dividiam seu tempo ao vivo entre suas falas e cotoveladas.


[1] Boxer, MMA e Futebol Americano eram os únicos esportes patrocinados pelo governo por motivos óbvios. Bem óbvios.

Por: Tonny Araujo


Caixa de Raiva - Parte III: “Good bye cruel World”


A polícia não estava preparada para aquela situação. Há anos havia sido condicionada a outro estilo de treinamento, e mesmo que tivesse força de vontade, era constantemente distraída pela vontade súbita de matar, que suas Caixas de Raiva adaptadas intramuscularmente suscitavam.

- Tiras filhos da puta. Não sabem nem o que os atingiu. Dizia um abobalhado Clandestino recém-liberto por Fred.

Enquanto os outros que estavam deitados no chão de seu esconderijo – um apartamento no décimo primeiro andar cirurgicamente limpo no edifício Custom House – gargalhavam como se fossem babuínos famintos dividindo um só antílope.

- Silêncio, idiotas se não quiserem voltar para a pocilga da qual os tirei. Disse Fred irritado, porém com um tom tão refinado e ácido quanto seu aspecto de demônio da impulsividade.

"Calma, chefia", "fica frio", "num esquenta com isso", repetia a trupe que levava tatuada no braço direito o símbolo de um coração mordido. Ideia de Fred Jobs em uma alusão ao símbolo que seu avô utilizara em seus aparelhos eletrônicos num passado distante.

Assustados e com certa quantidade de Raiva Ideal pulsando internamente, logo um silêncio amedrontador tomou posse do apartamento. Silêncio que logo seria quebrado por um berro horrorizante.

- IMPOSSÍVEL. COMO? COMO? MALDITOS.

Os Clandestinos sobressaltaram-se ao ver Fred com as mãos na cabeça, abrindo mão da postura inerte e gritando desesperado.

Na tela do computador podia se ver uma reportagem, no mínimo inusitada. Enquanto filmavam a faixada do edifício presidencial, na parte inferior da tela se repetia a informação:

Atenção. O perigo já passou. Cidadãos americanos poderão descansar e retomar as suas vidas. Policial descobre como acabar com os assassinatos.

- Boa noite. Sou Jack Loyd e estamos ao vivo direto de Washington onde a policial Eve Suffer descobriu como acabar com os ataques terroristas. Eve é verdade isso?

Eve tomou o microfone das mãos do repórter apressadamente.

- Me escutem. Não há tempo para formalidades. Eu sei que todos ainda estão muito chocados com a morte do senhor presidente – Stuart havia atirado na própria garganta em uma crise de depressão – mas, ontem à noite eu entendi como acabar com as mortes...

Por um instante na mente de Eve surgira a lembrança da noite passada na qual movida pela fúria causada pelo controle que o vírus estabeleceu sobre seu aparelho, amarrara seu marido na cama e cortara a perna dele fora. Se debatendo de dor, ele soltou um grito de socorro histérico que ecoou por toda a casa acordando seus filhos. Um deles correra para ver o que acontecia. Desesperado e confuso o mais velho correu para abraçar a mãe, danificando seu aparelho com as lágrimas e escarro incessantes que lhe caíam do rosto. Eve voltara ao normal, e embora estivesse assustada com a cena, uma estranha alegria de ter feito tudo aquilo inconscientemente a fez raciocinar e ver que a culpa era da Caixa de Raiva.

-... quebrem todas as Caixas de Raiva, agora mesmo. Alguma coisa as esta controlando. Rápido.

Dito isso, todos os cidadãos arrancaram imediatamente seus aparelhos. Alguns com muito pesar, pois pensavam no grande investimento que haviam feito comprando peças, aplicativos e capas para proteger do clima chuvoso. 

Dias depois a polícia encontrou o apartamento de Fred. E junto seu corpo. Os Clandestinos tomados de Raiva Ideal por causa das ofensas e de seu fracasso  não pensaram duas vezes em liquidá-lo. Não possuíam Caixas de raiva. Apenas a perversidade inerente em seus corações. Talvez por isso, tenham arrancado e comido o coração de Fred como em um ritual pagão. Talvez, só queriam se libertar daquela hierarquia que lhes parecia completamente sem sentido.

Passaram-se dez anos desde que os cidadãos experimentaram o horror inexplicável daqueles acontecimentos, e muitos deles - principalmente os mais idosos e desocupados - ainda imaginavam que seu destino fora para sempre afetado pela perda daqueles milhares de pessoas. Outros, porém, não obstante houvesse em suas mentes um lugar guardado para as imagens dos corpos estirados no chão e um desejo ardente de rever muitos daqueles rostos, devido à correria da vida, os compromissos, as preocupações, bem como as novas vidas que abrilhantavam as casas com sua energia e novidade, estes rapidamente tinham suas almas seduzidas e apagada permanecia qualquer angústia, restando-lhes, apenas a possibilidade de mimetizar seus sentimentos no feriado do dia primeiro de Outubro. Batizando-o de The Wasted Rage Boxes Day – O Dia das Caixas de Raiva Despedaçadas.

Distante do dia a dia agora pacificado das cidades, podia se presenciar nas fazendas um otimismo empolgante dos agricultores e mesmo dos próprios fazendeiros. Podia se ver também, o prazer do empregado em ordenhar as vacas de forma manual quando acordava com disposição, e quando não, utilizava-se a forma mecânica: uma bomba de sucção. As medidas higiênicas precisariam ser tomadas de forma rígida, não se queria perder qualquer animal pela falta de cuidado com sua úbere, apenas aplicar os devidos procedimentos para que a dor não os incomodasse e se aproveitasse ao máximo a produtividade dos animais antes que eles virassem cozido. O leite extraído era enviado para uma fábrica que o desidrataria, ou comercializaria em mesmo estado, antes o submetendo a um rígido controle de qualidade. O leite era embalado e comercializado. À posteriori  os cidadãos da cidade poderiam usufruir daquele alimento que antes não passava de secreção animal.

- Peter, estamos atrasados. Gritava Harry do seu carro, enquanto Suzy preparava o lanche do filho.

- Pronto, meu amor. Aqui está seu sanduíche.

- Obrigado, mamãe.

- Ah. Tem mais uma coisa. Que cabeça a minha.

Abriu a geladeira e viu no canto inferior esquerdo uma embalagem de papelão branca e azul com uma vaca desenhada de forma infantil e o nome Caixa de Leite em azul turquesa. Era mesmo um puro e branquíssimo leite. Não um refresco de maracujá, que ameniza a ansiedade através do placebo, tampouco café, a bebida dos pretensos intelectuais, que seguram suas xícaras em postura tipicamente fariseia. Mas leite da melhor qualidade.

- Já ia esquecendo que você precisa de muita Vitamina A, filhote.

A hora do recreio foi um tanto diferente para Peter dessa vez, e dividia os goles do leite, as mordidas concentradas em seu sanduíche com sua imaginação fértil. “Huum... mamãe faz o melhor sanduíche do mundo”, “esse leite está muito gostoso”, “vou comer tudo antes que alguém me peça”. Mais tarde a mesma vaca que propiciara aquele delicioso lanche, estaria sendo servida ao molho madeira no Parker’s Restaurant II.


É bem verdade que o Húbris deixara um saldo de mortos aterrorizante naquele país, e com toda certeza as mesmas estatísticas verteriam o sofrimento dos que se identificaram com o papel de vítima, em mero complemento informativo para algum jovem e ingênuo estudante, cuja mente e o espírito serão iludidos pela falsa impressão de humanidade, suscitada por aquelas sensações artificializadas dos elementos matemáticos e, talvez isto construa nada, além de uma necessidade de passar nas provas de História.

Naqueles dias, porém a inocência permanecerá tal como sempre foi: frágil e volátil. Inusitada e transitória. Um estado curiosamente decisivo, no qual os mais ridículos temores fortalecem o heroísmo de um homem, e as paixões de primavera o presenteiam com a inexata sabedoria de viver ou morrer.



FIM?


Por: Tonny Araujo


O suicida

"A morte que é sempre minha, de forma essencial e insubstituível, converte-se num acontecimento público, que vem ao encontro do impessoal" - Heidegger.

Chamo-me Jonh Guilty Spencer, mas podem me chamar de Guilty, ou J.G, como meus companheiros. Peço licença e alguns minutos de suas vidas para que eu possa discorrer sobre a minha história de amor e sei muito bem que as mulheres adoram histórias assim. Aviso, porém que a paixão pode levar-nos a lugares inusitados, loucos e absurdos. Mas o que seria de nós sem o Absurdo, não é mesmo? Aviso-vos também, que prestem muita atenção no momento em que vossas mentes engendrarem sua própria noção de minha vida. Que conscientemente se desvinculem das regras, e não se deixem seduzir pela inclinação religiosa que acomete a tantas mentes quando encontram uma parte de si mesmas.

Era 26 de fevereiro de 1991, um dia claro e quente como todos no Iraque, estava na Segunda Brigada de Ferro, em uma missão incubida de conquistar a cidade iraquiana de Al Busayyah. A estratégia, a propósito era simples: limpar a cidade dos malfeitores iraquianos e tomar suas armas (principalmente tanques e carros blindados), tal manobra me agradava bastante, pois sempre achei que fui feito para a guerra: as explosões; os tiros e o elemento artístico mais excitante destas raras cenas, os corpos estraçalhados. Bastava todos estes elementos se juntarem para que eu me entorpecesse, sentisse a vida gritar, para que enchesse os pulmões como se fosse a última vez e regozijasse olhando para o céu em uma forma singela de agradecimento.

Havia algo, confesso que me angustiava,não ao ponto de me tirar o sono, porém sabia que era isso que mais queria nessa vida: tornar-me parte do pelotão da infantaria. Curiosamente, sempre recebi o treinamento para ser piloto de tanque. Antes que me esqueça, dirijo um modelo clássico de tanque, um M15A Gun Motor Carriage, modelo inglês criado na decáda de 40, munido com quatro canhões cromados, ligas metalicas para sustentar as engrenagens das rodas anti-derrapantes e uma blindagem especialmente adicionada, dando um toque de sofisticação e agressividade à máquina. É impressionante a engenharia por dentro de um tanque como este, melhor sensação não há de haver. Tudo sob medida.

Muita gente vê, de fato, as batalhas como algo horrível, impensado. A morte não deveria ser sentida como quando se perde os caninos, sabe? Acho pura bobagem tal vulnerabilidade. Pensar dessa maneira é o mesmo que ir contra a natureza do homem: da destruição para absorvição, do vício pelo castigo, da semente pela flor, não cabe a pessoas que pensam no tempo de forma linear, mesmo porque o tempo não pode ser visto igualmente. A visão ciclíca do mundo é de absoluta pretensão, e a linear, pouco proveitosa.

Poucos sabem, mas em uma boa guerra a morte não é o mais terrível, o que torna uma batalha sem sentido é a falta de prazer fálico em relação às próprias armas, a ausência de desejo pelas partes de ferro e de metal que envolvem os projéteis feitos com tanta precisão a fim de seguir seu destino em uma rota de colisão. Por isso, não se deve abandonar o armamento de qualquer forma: são nada mais, nada menos que prolongamentos dos nossos corpos, e valem, hão de convir, bem mais que nossas vidas.

Cá estou nessa tarde seca de ar empueirado em um grande deserto, lembro-me de estar ansioso, estava louco para começar a pressionar o botão vermelhinho do manche do tanque. Ah! Esse botão realmente me dava prazer, sentia como se estivesse dentro de um jogo, com regras simples: apertar o botão nos locais e momentos certos. Era tão fácil, a princípio gostava muito, no entanto sabia que poderia fazer bem mais, afinal de contas pudera eu estar no meio do fogo cruzado, sentir o cheiro do suor e do medo, ver a lágrima cair e o sorriso brilhar como se fosse o primeiro e derradeiro dia. Não me importava se a minha mulher se chamava Any ou se minha filha estava tirando notas boas para ir para Yalle. Estava onde queria...

- Ei, JG? Não fique aí parado pensando na vida seu palerma. Vamos, me ajude a recolher estes corpos homem!

- Entendido cadete Monroe! Dê-me só mais alguns minutos.

E lá fui eu carregar um monte de corpos e o que lhes restou, muitos deles amigos e conhecidos meus, mesmo porque os defuntos do pilotão inimigo não eram problema nosso, ficavam ao chão seguindo o propósito nobre de adubar as plantas e alimentar os abutres.

Enquanto carregava o que sobrou do corpo de Steve Campbell, aproximadamente 23 anos, um braço a menos, olhos castanhos, pouco ou nenhum costume de utilizar desodorantes e uma mania estranha de cantar músicas pela metade, perturbava-me uma vontade insandecida de perguntá-lo o que sentiu ao ter o coração vasado do corpo e um dos membros cortado. Muitos cientistas, escritores, filósofos se debruçaram e se perguntam como a vida pode ser mais bem vivida, daí tentam encontrar a cura para as doenças físicas, mentais e espirituais do homem, porém nenhum deles se perguntou se a vida merece ser vivida. Essa é a pergunta crucial, sem a qual nenhuma das demais faria sentido.

Provavelmente ao voltar para meu país daqui a alguns meses esses cadáveres serão lembrados como heróis e os vivos procurarão outro tipo de ocupação tediante para as suas vidas, agora perturbadas eternamente pelas imagens horrendas as quais presenciaram.

- Certo seus cães. Faremos uma pausa para o almoço, todos em fila já! Vamos! Vamos! Gritava pateticamente com um inglês engraçado o capitão Boby Faustine, descendente de franceses.

- Sim, senhor! Agora mesmo, senhor! Respondíamos como um coral desafinado, mas em um ritmo impressionante.

A comida era um verdadeiro lixo, ficava estocada em containers sujos por dias chegando a estragar bem rápido, imaginava enquanto mastigava aquela carne seca e imunda com gosto de barata se a carcassa de meus queridos amigos derrubados em batalha não estaria muito mais saborosa. Ora, loucura seria deixá-los para serem comidos pelos animais da região. Por que diabos nós seres humanos também não mereceríamos nos alimentar de maneira digna?

Confesso-vos amigos, que em circunstâncias tão desesperadas como tais, nossas mentes começam a delirar. São momentos em que não há um caminho certo, ou errado, não se sabe nem mesmo se há uma linha na estrada a seguir. Onde estaria então a linha do caminho? O caminho não tem linha, não tem pigmento, nem som, tem apenas uma semente, que pode se estragar pela cicuta, ou pode se amar como uma puta.

Ah! Como eram sortudos aqueles malditos amigos que tinha. A sociedade, sobretudo as instituições religiosas sempre julgam mal os suicidas, enquanto os soldados, aqueles que vendem sua alma em troca da patética memória patriota e morrem como porcos no campo de batalha, a eles, somente a glória e boatos positivos a seu respeito, todos esquecem suas atrocidades.

Depois da ração, tratei de voltar correndo para meu tanque, que estava do lado de um T-55, um verdadeiro dragão refrigerado, construído por geniais sanguinários soviéticos. Ah! E pensar que essa belezinha tem um poder de fogo capaz de explodir bairros e residências inteiras com poucos e certeiros disparos. É no mínimo, mágico observar as letras verdes no radar, o botão vermelho do disparo e as escotilhas que quando puxadas liberam quatro submetralhadoras. Feitas sob medida.

Pensando melhor, fui eu mesmo que escolhi naquele momento, ao entrar para as Forças Armadas me alistar e receber o treinamento nos tanques, eu cri que era o mais saudável e uma oportunidade única para pessoas com gostos artísticos tão exóticos quanto os meus. Sei bem que falando desta forma, a guerra parece apenas isso, uma atuação de quinta. Não para mim.

Vejam que engraçado meus amigos, mal havia acabado a União Soviéticae e eis os tanques dos vermelhos, agora pilotados por nós, Yankees. A nação falida vendeu-nos os Tanques a um preço "camarada", bem como para novos países envenenados de raiva como a Argélia e Angola, (pequenos países africanos que nascem para lutar e lutam para perder) é fabuloso como povos tão pobres podem lutar tanto e principalmente perder tanto: nas batalhas e nas negociações de armas. Pobres demônios.

Depois de um tempo no exército a morte não significa muita coisa. Ainda há aquele medo da dor, e isso é inalterável. Felizmente inalterável. Sem o medo que espécie de emoção o fato de estar vivo teria? O ser humano necessita sentir as mais diversas sensações, o amor, o ódio, a esperança, o rancor e o medo para poder se conhecer e se reconhecer. Porém, fatos como a morte, nestes trâmites, apenas fazem parte do espetáculo. Não há comoção. Não há lágrimas. Não há saudade.

Essa é a descrição superficial do ambiente monótono e moribundo que se constituía à minha frente: eu caminhava pisando os cadáveres, tão calmos, antes cheios de angústia, dívidas, frustrações, relacionamentos conturbados, nenhuma chance de fazer as coisas serem diferentes. Agora era diferente. Nada, ou ninguém poderia atormentá-los. Uma inveja diabólica e interessante me fazia cócegas. As pessoas na verdade correm para a morte com medo dela durante sua vida toda e quando alguém corre direto sem qualquer temor para o destino que o espera, simplesmente o acusam de covardia, levantam hípoteses sobre algum erro do suicida: insucesso pessoal, profissional ou familiar. Mas, não era conveniente pensarem isso de um maldito matador do Estado.

A morte está em tudo, assim como seu absurdo poder de construção. Quando se está em busca do conhecimento, quando se esgota as energias em algum objetivo frívolo, na pregação de domingo, no sexo selvagem com pitadas de amor sincero, na adrenalina imposta para um pequeno, mas não casual assalto, na procura pela solução de um cálculo, na composição de uma música que obtenha as próprias qualidades viscerais, numa infinidade de situações que se aplica certa quantidade de vida, ao mesmo tempo se paga o preço por estar acelerando a própria sentença. Sentença justa se pensarmos bem. Um veredito universal, porém uma prisão que somente quem sentiu tal experiência pode explicar. A morte é feita sob medida.

Para aqueles que procuram a morte através de consertos e reformas. Feita para você que acredita  através de uma base sólida poder erguer o mundo, destruir aviões ou ascender fogueiras. Para você, experiente no campo de batalha, que tem a sensibilidade e visão sem medo de começar pela carne podre e de pagar para ver, ou até mesmo para vocês que copiam de um gênio suas sábias palavras e suas ideias pouco aproveitadas. Afinal de contas é como já dizia o sábio artista "artistas bons copiam, grandes artistas roubam".

A propósito, lembro-me muito bem duma história contada semana passada por um velho amigo pertencente a esta mesma brigada, Arnold era seu nome, se não me engano. Ele me contou enquanto comíamos a velha ração de lebre, que há um tempo em muitas cidades da União Soviética, a fome era tão alucinante, que todos pareciam zumbis desesperados, é que ao passarem dias sem comida, perderam completamente a razão. Nesse estado, dizia-me ele, o estômago e os muscúlos começam a entrar em um processo de autoflagelação, é o último aritifício do corpo, momento no qual se percebe que a morte dos outros é mais bem vinda do que a sua, que comer o tutano do fêmur de alguém é a última esperança do homem.

Desta forma sóvieticos saborearam uma fome tão avassaladora que seu comportamento se tornara similar a de malditos canibais: homens devorando crianças, gangs dividindo democraticamente quentinhas feitas de pernas e glúteos de infelizes desinformados.

Meus queridos nem os parentes eram poupados. Arnold me contou com um sorriso no canto da boca que uma mulher foi flagrada pelas autoridades comendo a carne do seu marido e dividindo com a sua cria. Perguntaram a ela, estupefatos:

- O que faz mulher? Está louca?

- Não sejam tolos! Estou comendo o meu marido com meus filhos. Ele é o nosso sangue e ninguém tem o direito de levá-lo. Precisamos dele para nos alimentar.

Nesse instante, aquelas informações se apoderaram de minha mente, como uma bala perdida encontra o corpo de alguém perdido. Pude reafirmar a mim mesmo que o desejo de viver nasce na verdade dos sustos e do perigo.

Isso acontece o tempo inteiro, até mesmo com você leitor que se deleita nesta narrativa. Pergunte-se quanto tempo você já dedicou a essa história. No entanto, acho que você não dá a mínima, não é mesmo? "Quem se importa? Quem se importa com os tais revolucionários torturados e humilhados em cárceres? Quem se importa com a fome do caipira do Arizona, ou com as vítimas de incêndios repentinos? Quem se importa com os políticos depravados?"

As pessoas assassinam umas as outras por pregarem que 'os maiores devem devorar os menores', ou mesmo para saber quem é mais, ou menos revolucionário. Daí, a razão pela qual se muda de uma vertente política como de religião: através da dor. Indiretamente, óbvio. Óbvio, porque a história já provou que os mais convictos politicamente, foram torturados, humilhados em cárceres fisica e espiritualmente até desfalecerem, enquanto que outros cederam a concepções opostas por causa da morte de entes queridos.

Arnold foi derrubado dias depois com duas balas na cabeça. Eu sei. Acham que estou com inveja, não é verdade? Felizmente tenho quatro balas sauvestres em minha espingarda e estou pronto para saber qual é a sensação da morte. Do frio cano duplo em minha garganta e das balas perfurando meu cérebro. Tentador. Porém, não estaria fazendo nada original. Muitos se matam dessa forma e pelos motivos mais clichês. Meus queridos a morte está em tudo: nas bombas, nas balas, nos contos e nas estórias de fadas, está em você também. Sim, você leitor. Mesmo sabendo que parte de sua vida estava em jogo ao ler minha história, prosseguiu e doou sua alma sem restrições, libertando o suicida que há dentro de você. Minhas mais sinceras congratulações. Temos todos, porém um só segundo de vida, o resto é licença poética, imaginação, desejo. Se você ainda está vivo... Viva como se já estivesse morto.

- Sentido, soldado!

- Sotaque engraçado, não é?

FIM

Por: Tonny Araujo e Luís Fernando.


A pintura

Havia um artista que se pusera a viajar sem rumo pelas nebulosas planetárias. Por ter deixado seu lar sideral bem cedo, mantinha orgânica aquela fome de pintar, de preencher espaços amorfos, sem sombra, sem luz, com seu traço quase ultra-surrealista, quando não, expressionista. Por causa de sua avassaladora paixão, e profunda tristeza causada pelas super-novas, saiu com pressa a inserir uma geometria brilhante e portentosa pelas Galáxias, ao que chamou suas primeiras formas de "Astros e Estrelas eternas", nome surgido num daqueles "insights" depois do almoço. Em dias de fúria pela falta de criatividade, lançava seus pequenos potes de tinta sobre suas obras, criando uns planetas e também buracos negros, bem como tantos outros rascunhos espalhados pelo cosmos. Cansado de divagar o pincel com o absurdo policromático, pensou como sua própria expressão iluminada pela pintura Sol refletida nos mares da Saturno seria linda, e decidiu fazer auto-retratos. Porém, era possuidor dum orgulho, duma rebeldia, dum narcisismo tal, que jamais os faria para amigos, família, vizinhos, uma vez que estes o ignoraram certa vez por acreditarem ser sua arte mera perda de tempo. Não. Quis pintar a si mesmo. Para si mesmo. Então, passou dias usando seus melhores e mais caros pincéis. Chatos, quadrados, redondos, em fim... Utilizou misturas de pigmentos consideradas anti-acadêmicas pelos pintores tradicionais e, até mesmo para o mais miserável e informal artista. Terminando tudo expôs desiludido sua obra perto de outra especial, a qual deu o nome de Terra. Família, amigos e vizinhos algumas semanas depois, preocupados pela falta de notícias, o procuram em seus aposentos, quando, pois, contemplaram sua arte e suspiraram, todavia lá só estavam as criações. Mais tarde, ao encontrá-lo, depois de uma árdua procura revirando lixeiras numa constelação vagabunda à procura de comida, informam-lhe o quanto acharam perfeitas as pinturas que enfeitavam sua sala. Sem qualquer pretensão de modificar seu status quo expressam-lhe a grande maravilha de sensações que lhes suscitaram ao vislumbrar um espaço com aromas oníricos tão sublimes e não, não o lar esmeril no qual permaneciam. Porém, o artista diz-lhes que há uma pintura de maior magnitude em seu ateliê. Ansiosos pedem que lhes a mostre. Ele volta, afasta do seu campo de visão as outras pinturas expostas em lugares privilegiados, se vale dela cautelosamente e diz: "Tentei pintar-me diversas vezes. Me dediquei bastante, e ainda que com fome, a sede para terminar esse trabalho foi maior. Por longas noites, perambulei sem sono pela casa em recalcitrância aos sentimentos que esta obra me impelia sentir. No fim, vi que tinha projetado sobre a tela o ápice de minha inspiração. Não sou apenas eu nesta pintura. É algo que preciso para ser imortal."

Por: Tonny Araujo


Ferro-velho


Sempre fui um amante da música. Desde muito pequeno, lembro bem que me deliciava a ouvir clássicos por horas e horas. Clássicos estes que para mim, eram a fonte de toda a inspiração e, de forma estranha, somente quando me valia da companhia deles, era capaz de me debruçar na cama e dar espaço a mais insana imaginação. Era um momento de quebra não tão somente da realidade, também era de abandono a velhas idéias, algo que excedia sobremaneira a relação entre consumidor e produto, fato que não acontecia quando me dispunha de albuns contemporâneos a mim. Talvez, porque a alta qualidade de gravação me soava enganadora, distante, ofensiva, enquanto que as mais antigas, de forma irônica, eram as que mais se aproximavam de meus sentimentos. Era, de fato satisfatório.
Nasci aqui mesmo em minha casa, casa de tamanho significativo, neste bairro circunciso e calmo. Talvez o meu gosto por músicas antigas, tenha nascido quando eu mesmo ainda não. É que, quando minha mãe ainda estava grávida, haviam alguns vizinhos, que se predispunham a deixar o volume de seus equipamentos de som ao máximo quase todos os dias, com canções que traziam consigo não só o poder de lançar a alma em outra época, elas a rejuvenesciam, talvez para que aproveitassem uma vez mais a felicidade de um tempo que jamais voltará substancialmente. De certa forma, acredito que ainda enquanto feto, aquele som ecoado, aquele disco gravado com os últimos centavos que restavam dos músicos, me encantou desde ainda nem nascido.
Imagine nascer numa cidade cuja única opção de diversão se encontra nos super-mercados? Eu sei. Não se pode viver sem adiquirir bens de consumo em uma sociedade moderna como a nossa, não é mesmo? Por essa razão, os velhos vizinhos, cansados desse ritmo agressivo de reabastecimento diário, optaram por dedicar mais tempo para si mesmos, para separar seus melhores discos (geralmente, os que estavam mais empueirados) e investir em sensações alheias à sua carne velha, de uma estética ignorada até mesmo pelos próprios familiares. Eu os a admirava por isso. Muitos morreram ao passo dos anos, porém um perdurava junto de seus velhos alto-falantes, de suas tralhas, apegado ao ultrapassado, ao feio por não ser útil a muitos. Seu nome era Jeff Oldmind, um velho homem dedicado a manter vivas as tradições do interior que deixara para trás bem novo, por isso seus objetos materiais eram como pedaços de seu coração e as belas canções lhe recobravam os tempos em que fazia serenatas para as donzelas que um dia amou. Estas e muitas outras coisas me foram concedidas conhecer, numa certa vez, em que junto de uns amigos, invadimos sua propriedade, sem qualquer motivo lógico, a não ser é, claro pelo desejo voraz de ter acesso a um local jamais pisado, mesmo que este estivesse a uns 50 metros de nossas próprias casas. Estávamos em quatro: Eu, Corson, Jonh e Sammy. Estudávamos na mesma escola, então tínhamos bastante tempo para arquitetar maneiras loucas e infantis de se divertir, como a dessa noite. Foi numa quarta-feira, às dez horas, nunca ei de esquecer aquela visão magnífica de sucatas, eu devia ter uns nove, ou dez anos, e aquilo para mim se constituiu como um reino de valiosa fortuna. Lembro bem que o velho Oldmind ouvia em seu quarto a canção “We belong together”, um clássico dos anos 50, e que embalou aquela visão esplendorosa. Haviam carros dos anos 40 ali, rádios de botões maiores que as tampinhas de refrigerante, aparelhos de tv abertos, deixando à mostra peças enormes, como robôs aposentados e substituídos por outros de melhor tecnologia, porém com a mesma finalidade, mesma função.
Achávamos que poderíamos fazer o que quiséssemos, pois nunca o velho escutaria qualquer ruído que não fosse o da agulha no vinil, indicando a mudança de faixa, ou que o disco, que geralmente continha no máximo quatro músicas, tinha se finalizado.
Foi um momento excitante, me encontrava anestesiado dentro de um Carocha preto sem rodas, quase que engolido por inteiro pelas trepadeiras que envolviam boa parte dos objetos dali. Me sentia realmente um soldado em plena Segunda Guerra. Para aumentar a emoção, encontrei fitas antigas no porta-luvas, uma delas era uma regravação do disco “That’ll be the day”, canção que teve outras tantas versões desde o início da década de 60. A adrenalina possuíra meu corpo por completo quando de alguma forma o toca-fitas funcionou e começou a tocar a música de mesmo nome. Mal conseguia reparar em meus amigos, muito menos no clima, ou mesmo lembrava em que século estava, só conseguia pensar em voar. Isso mesmo, aquele velho carro enterrado na terra, agora se tornara um luxuoso aero-motor, e nada poderia me trazer de volta ao presente.
Enquanto me deleitava com as músicas, fui capaz de perceber a ausência dos meus fiéis companheiros de aventura, e pude ouvir batidas que não eram da bateria gravada das canções. Era o velho Jeff. Era o velho Jeff Oldmind que batia à porta do veículo!
O medo tomou conta de minhas ações. Tentava abrir a porta, porém não conseguia, estava trancada, e as canções que, outrora traziam êxtase, agora aumentavam meu terror diante daquele rosto de pele caída e expressão diabólica. Vendo minha relutância em abrir a porta para que entrasse, facilmente o fez, tranquilamente sentou no banco e mudou de faixa dizendo:

- Ah! Essa aqui é bem melhor, tem um compasso mais suave. Ouça! Disse com tamanho brilho nos olhos o tal senhor, sabendo que um ritmo mais lento, com certeza amenizaria a velocidade das batidas do meu coração. Era “True love ways”.

O velho realmente foi muito sábio, confesso, pois, pouco a pouco, ao ver suas expressões faciais, uma sensação libertadora se degladeava com o medo, outrora devorador que minha face mostrava. E ele ficava lá, com a cabeça recostada em seu banco, com um sorriso leve, e olhos fechados, como se as ondas sonoras da canção pudessem tocá-lo como mãos forçando seus lábios secos e de aparência triste, quando da ausência de tais canções, a se alegrarem.
Incomodado por vê-lo naquele invejoso estado, o indaguei:

- O que tem de tão especial nesta canção?
- Por favor, meu filho... Respirou por um tempo e prosseguiu:
- A pergunta é, o que esta canção tem de especial para você?
- É a primeira vez que a ouço, senhor, não a conhecia. Só ouço as canções de ritmo rápido.

Foi, então que se pôs a derramar lágrimas tímidas, e me disse que aquela canção o fazia lembrar de seu falecido filho e de como conhecera sua esposa que partira a menos de dois meses.

- Tudo aconteceu num acidente de carro. Eu vivia sempre apressado, seguindo o ritmo da cidade, do trabalho. Foi horrível perder meu filho naquele dia, mais ainda minha mulher, que doente e com tais lembranças em sua mente, não suportou e se foi. Me explicava o senhor.
- Descul...
- Calma! Não se desculpe. Não choro de tristeza. Os fatos foram tristes, eu sei, mas há muito tempo percebi que não é chorando de tristeza que as coisas se encaixarão. Perdi pessoas muito queridas, muito amadas, mas sei, e essa canção me dá forças para acreditar, que um dia nos encontraremos num lugar, numa hora, bem melhores.
- Quer dizer no céu, senhor?
- Qualquer dimensão em que haja amor, meu filho, outro planeta, até.
- Parece um sonho. Mas, o senhor não é velho demais para...
- Para acreditar em sonhos? Sorriu como nunca naquela noite e me respondeu:
- Você vê apenas uma carcaça velha, fraca e que logo, logo não existirá mais. Porém, os sonhos que todos carregamos são feitos de um elemento eterno, quanto melhores e maiores forem, maiores são as possibilidades de se tornarem realidade. Porque é disso que o mundo precisa. Entende?
- Então, quer dizer que o mundo precisa de bons pensamentos para se manter? O indaguei, incrédulo com minha pergunta.
- Pelo visto, você aprende bem rápido. Disse satisfeito e completou:
- Você ainda é jovem, mas me parece um grande amante da música, assim como eu. Sua família deve ter muito orgulho de você. Não sei se sabe o meu nome, mas, não perguntarei o seu, às vezes nomes, soam de maneira a nos fazer construir pré-conceitos. Veja só o meu “Jeff Oldmind”. E eu ainda tenho vinte anos! E caimos na gargalhada.

Depois me disse para não ser tão apressado como as canções que gostava, e que não tratasse as pessoas como, por muito tempo ele as tratou, como imortais, que cada uma possui um pouco de “objeto antigo”, que sua importância atravessa os anos, por mais longos que sejam. E que esse era o caminho verdadeiro de amar.
Já seguro e contente pela companhia do velho Jeff, o olhei fixamente e abri a boca para dizê-lo a meu respeito. Queria lhe dizer o meu nome, em respeito à sua posição, e por educação.

- Mil desculpas. Prazer, senhor Jeff, o meu nome é...

E lá estava eu, ainda no Carocha preto. Sozinho. Era dia. Devo ter dormido aquela noite, e como tenho o sono pesado, meus amigos não conseguiram me acordar. Saí para ver o dia e percebi que estava em um ferro-velho. “Tudo que aconteceu não passou de um sonho?” Pensava comigo. Enquanto caminhava para casa e imaginava a possível surra que me esperava, no meio do caminho ouvi bem baixinho uma canção doce e suave que falava:
“Ao longo dos dias, nossos verdadeiros caminhos do amor nos trarão alegrias para compartilhar com aqueles que realmente importam. Às vezes nós suspiraremos, às vezes nós choraremos
e nós saberemos, por que só você e eu conhecemos os caminhos do amor verdadeiro.” Sim, essa é a história de um sonhador.

Por: Tonny Araujo

Trilha sonora:

Balada do Cânone Privado



Todos esperam a moral da história perfeita: um final  tão sublime quanto as deliciosas palavras que o antecedem em uma narrativa. Por causa disso, vi tantos escritores matando e morrendo por dentro; É que a crítica e o público, eram feitas - e muitos hoje ainda são - de pessoas que reclamavam para as suas vidas mesquinhas a não-frustração, o passo a frente, o reencontro, a felicidade subjugada à humildade. Vi mais do que palavras mortas na cesta de lixo, vi possibilidades brotarem e simplesmente serem tratadas como fetos mal formados. E assim, o escritor se tornava escravo de seus leitores em busca de míseros trocados. Era o triste cárcere em que se encontrava boa parte da Lost Generation. Se ela tinha seus motivos? Descubra.
A história que vou contar-vos não intenta sacrificar a sensaboria da vida, ou seu gozo abençoado pelo imprevisível. Aconteceu nem há tanto, nem a pouco tempo atrás.


Alemanha, 14 de Outubro de 1957.


Deitado sobre os papéis em posição fetal ele dormia tranquilo, pois já não se lembraria das horas que o sono ceifou.
Izan gostava muito de desenhar e isto o fazia bem. Tal habilidade surgira quando jovem, na época o seu hobby era representar através das formas suas emoções e todo espaço físico que o interessasse. Sua casa nova era repleta de imagens muito bem sombreadas por lápis e grafites compradas por seus filhos, estes eram cuidadosamente armazenados numa escrivaninha ao lado de sua cama. Nem todos os dias eram propícios para se fugir da realidade caçando animais na floresta Odenwald, e escrever não era seu forte, preferia converter a realidade em sua mente em linhas e perspectivas.
O tédio era inevitável em dadas circunstâncias: não havia televisão, rádio, ou vizinhos a quem pudesse compartilhar informações. Apenas a presença de seu fiel companheiro Veloz, um velho Akita que o acompanhava há muitos anos e que pela velhice mal conseguia latir -  para Izan, talvez esse fosse o detalhe que mais lembrasse o desgaste de um cão.

Num dia desses de envolvimento total com seus desenhos algo estranho lhe aconteceu, não conseguia achá-los em lugar algum. Procurou arduamente por toda a casa, geralmente ficavam pelo chão da casa mesmo, mas não desta vez. Era importante que os achasse para recobrar a criatividade. Passou, então a procurar em lugares absurdos: no banheiro, de baixo do tapete...

- Onde diabos guardei os desenhos Veloz? Passou a mão na cabeça de seu amigo peludo para convencê-lo a ajudá-lo.

O cão balançava sua calda e farejava os cômodos, enquanto Izan com muito esforço se abaixava nos cantos mais inusitados de sua humilde casa.

O ano é 1960. Izan Freiheit sempre apreciava a chegada da Primavera sob sua cadeira de balanço da sacada de sua casa. Não pense em nada requintado, na verdade por escolha própria, tratava-se de um casebre de madeiras escuras e úmidas, com poucos cômodos: um sofá, uma cama, algumas cadeiras de quercus coccifera e uma mesa baixa de cedro. Adorava ver as folhas caindo ao chão da sacada, como se fossem caças atingidas em cheio pelo caçador aventureiro e se alegrava bastante com o cheiro nostálgico do solo molhado, indicando que havia passado mais um dia de chuva.

Quem é Izan Freiheit, afinal? Um homem de muitos princípios, que pela idade avançada  e por uma estranha doença resolvera se mudar da cidade para o campo em busca de paz de espírito e de algo que desse novo sentido a sua vida. É curioso como a área rural - para quase todo mundo - reúne algo de “paraíso reconquistado”, de excitante esconderijo e, de fato no fim das contas todo homem mais cedo ou, mais tarde sempre encontra seu lugar secreto. Uns o acham na infância, outros à beira da morte.

A antiga casa de Izan na cidade se localizava na cidade de Adorf – uma pequena aldeia fundada em 1200 – e o cuido da residência depois que resolvera abandoná-la ficara responsável por seus filhos, netos, empregados e amigos dos mais variados, embora apenas os filhos o visitassem, com pouca frequência e merecessem, segundo a conveniência, maiores direitos. A respeito deles, eram quatro: Fritz, Apolinne, Heike e Fernandino.

Izan adorava a visita deles e, ainda que estivesse em profundo estado antissocial, algo o fazia regurgitar a cada palavra bem escolhida, a cada discurso familiar caloroso em torno da mesa de jantar e quando batiam no peito, orgulhosos por serem cidadãos sempre muito empenhados com seus afazeres sociais. De fato, essa era sua maior alegria quando dos bastante raros momentos familiares.

- Pai quantas saudades de você! Quando voltará para casa? Estamos todos esperando por esse dia, sabia? Declarava docilmente uma de suas filhas.

- Voltar? Para aquele barulho infernal? Jamais Apolline. Jamais! Retrucava Izan.

- Mas, meu velho, já está aqui há quase dez anos... Se não, mais! Advertiu Fritz espantado com a resposta do pai.

- E ficarei o resto de minha vida aqui. Mantinha o tom ríspido em suas respostas.

- Mas você prometeu...

- Prometi voltar assim que estivesse melhor, mas... Hesitou.

- Você nunca disse a nós o que tem, nem o doutor Anselm. Vocês estão escondendo alguma coisa.

Doutor Anselm era o psiquiatra da família, e cuidava de Izan desde que percebera alguns lapsos em sua memória não declarativa.

- Tenho a saúde instável Fernandino, e você sabe muito bem disso. Agora vão. Deixem-me descansar. Amanhã é dia de caçar e quero estar disposto.

- Tudo bem, mas voltaremos qualquer dia papai.

Despediu-se Apolline, enquanto o mais novo Heike de apenas 10 anos abraçava o pai forte.

- Que isso garoto? Até parece que está me dando um adeus.

Ditas estas palavras, Izan se pegou novamente sozinho, como se sua vida funcionasse automaticamente e todas as cenas fossem rapidamente cortadas e selecionadas, similar a um filme do qual todo e qualquer ser humano sempre se acha pretensamente protagonista.
No carro a caminho de casa e quebrando aquele estranho silêncio que acomete pessoas que se conhecem com afinco, Fritz exclama:

- O tratamento tem dado efeito, ele não se lembra de nada que aconteceu.

Logo em seguida, recebeu consentimento dos demais com sinais de suas expressões faciais sérias e centradas.

- Onde diabos guardei os desenhos Veloz? Era fim de tarde, e a vontade de rabiscar se fazia latente.

De repente, Izan escutou latidos cansados vindos de fora da casa. Era Veloz perto de uma árvore velha a poucos metros da escada que dava acesso ao quintal. Ele se dirigiu lentamente, fazendo a insistência dos latidos fraquejantes de Veloz cessar.
O cão segurava os papéis babados com os desenhos dos quais ele precisava para tomar inspiração, tomou-lhes da boca do animal e empalideceu ao olhá-los. Seu corpo estremeceu e um arrepio abrupto percorreu lhe a espinha. "Estou tendo algum tipo de sonho, ou alucinação?" Surgia e desaparecia a mesma pergunta como um flash diante de seus olhos.
No exato instante cenas embaralhadas de luzes, e de pessoass estranhas circulavam sua cabeça, como se estivesse num carrossel vendo sua realidade se deformar pela velocidade. Havia pessoas. Havia berros. Sons ensurdecedores. Clarões. Sangue por sobre o chão cinza. Quanto às pessoas não conseguia reconhecer seus rostos, estava tudo muito embaçado. A confusão em sua mente o fez desmaiar por algumas horas, todavia em sua cabeça eram como se  houvessem passado apenas alguns segundos. Após acordar, percebera que já tinha caído a noite. Eram vinte e uma horas exatas. Sujo de areia e suado resolvera entrar e tomar um banho. Não lembrava de coisa alguma.

É quinta-feira, uma leve neblina recai sobre toda floresta, não era um dia oportuno para caçar, ou mesmo fazer caminhadas até o lago, só restava aos inseparáveis companheiros passar o dia em casa descansando e “planejando” o que fariam quando o tempo estivesse mais apropriado. O sono logo se apoderou de Izan, mas seu cão o observava atento. Algumas horas depois, um suor excessivo começou a jorrar de sua face ininterruptamente. Em seu rosto um semblante medonho se fazia presente. As mesmas imagens distorcidas uma vez mais agrediam seus neurônios, os choques de realidades múltiplas: dos latidos de Veloz, das cabeças solitárias, dos berros e dos homens estranhos de seu pesadelo pareciam comprimir seu cérebro sem misericórdia. Sobressaltou-se.

- Meu Deus! O cão se espantou com a atitude do dono.

- Meu Deus... Meu Deus.  Agora compreendo os desenhos. Os desenhos, Veloz. Onde estão campeão?

O cão permanecia inerte e com um comportamento indiferente.

- Vamos garoto! Venha.

De alguma forma aqueles repentinos e estranhos acontecimentos devolveram a vitalidade de Izan, não sabia se o prazer recém surgido agia ad hoc, apenas se sentia novamente jovem e tomado por uma adrenalina que há anos não percorria seus nervos. Internamente agradecia aos céus ao qual nem se importava tanto. O sentimento de gratidão foi em seu pico quando pôs as mãos em seus misteriosos desenhos, acariciava-os, admirava-os, amava-os, com certeza bem mais do que qualquer mulher,ou mesmo seus próprios filhos a quem dedicou todas as suas energias a vida toda. Contudo, novamente uma forte lembrança atacara seu cérebro, esbofeteando seus neurônios sem parar. Gemia com as mãos na cabeça se debatendo ao chão e a cada móvel quebrado, a cada som de destruição, seus olhos enchiam de lágrimas de felicidade. Eis o êxtase de juventude: a rebeldia, a vida fora da lei, o não importar-se, a suficiência dentro de si próprio. Izan sentia algo muito próximo enquanto lançava seu corpo de encontro a parede. Finalmente estava salvo. Salvo da monotonia, da pena dos mais jovens, dos ossos fraquejantes, do estúpido desejo de aquietar-se em um canto.

Voltara a se sentir imortal.

Dentro de seu peito chacoalhavam ilusões febris, daquele tipo forjadas apenas quando se está descobrindo o desejo de crescer duma vez só. Do tipo que chegam sorrateiras junto com a sensação de perda do que nunca se teve. E ponderou por um instante: Os homens quando perdem seu mistério, já não precisam viver mais, nem perder seu precioso tempo desfalecendo em solidão fatal, posto que na repulsa de suas faculdades desconhecidas, tornam-se uns infames humanóides, filhos bastardos da Mãe Natureza. Caído ao chão, um sorriso estampava seu rosto.

A sexta-feira põe-se a desaflorar. Desde então, era comum depois de caçar a tarde, vê-lo experimentar da deliciosa sensação de morte que aquelas horrendas lembranças lhe traziam. Passados alguns meses até erguera um "altar" no meio do quarto. Achava que era hora de depositar suas esperanças naquilo que o fazia bem, então separou alguns desenhos, comprou um agradável incenso e algumas velas para dar uma estética abrilhantada ao seu abrigo espiritual e, claro para vê-los mais detalhadamente em meio a escuridão. Ora, se sentia egoísta por não prestar as devidas honras ao desconhecido motivo que o devolvera a felicidade juvenil.
Enquanto Izan saboreava os prazeres de sua mocidade mental, sua consciência permanecia eufórica, sua alma aparentemente mais forte e  seus olhos mais vívidos. No entanto, o tempo perseguia sua carne e massacrava lentamente seus órgãos. Tudo isso lhe passava despercebido porque inconscientemente se recusava a dar créditos àquela morte gradual.
A insanidade finalmente controlara cada pequeno pedaço de sua alma. Estava completamente embriagado e cego pelo prazer depositado naquelas criações medonhas: não percebia que seu corpo envelhecia dia após dia, que era mortal, que a fé enlouquecida surgida nalgo que o fazia esquecer de suas frustrações, de seu verdadeiro "eu", e que parecia lhe oferecer uma nova vida, na verdade o assassinava violentamente; o fez perder o contato com as pessoas que amava e o lançou em um poço de horror e perdição. Escolheu esconder-se em si mesmo.

O Outono estava chegando e em uma visita aleatória depois de meses sem ver o pai, Apolline resolveu sair mais cedo do trabalho e ir até o casebre onde Izan residia para conversar e apreciar a vista de sua sacada. Ao cruzar a porta se deparou com uma visão medonha: Enrolado sobre os papéis estavam os corpos de Izan e seu cão rodeados de velas. Após uma crise de choro inconformado ligou para seus irmãos e para o doutor Anselm. Todos observavam estupefatos ao templo de papel estabelecido por Izan: haviam velas de diversas cores, folhas no teto, ao chão, nas paredes em todos os cantos do quarto. O cão estava magérrimo assim como seu dono.

- Nunca imaginei que isso fosse acontecer. Lamentou Doutor Anselm:

- Pela primeira vez em minha carreira dei um diagnóstico falido. Não previ nada disso. Izan possuia destúrbios sérios por causa das cenas brutais da Segunda Guerra, lembro bem de cada exame. Sua mente de alguma forma esquecera daqueles eventos de forma particular, e de fato isso era muito estranho, mas não chega ao horror desta realidade. Mil perdões. Mil perdões. Dizia cabisbaixo o doutor de orgulho ferido.

- Não se culpe doutor, muito provavelmente foi falência múltipla. E além do mais nós escolhemos mantê-lo longe de tudo para que não lembrasse da Guerra de forma alguma. Veja só estes desenhos doutor! Veja! Na-na-da podíamos fazer, ele... com certeza faleceu por lembrar das pessoas que foram mortas em campo. Dizia com dificuldade Fritz.

Após todos saírem para respirar e chamar a ambulância para levar o corpo, Heike resolveu se despedir do pai. Um olhar de admiração e não de pena, ou remorso tomava o rosto do menino. Em sua mente inocente valia mais a pena saborear a saudade do que indagar se aquilo era justo ou não, bom, ou ruim.
A cena absurda do garoto observando seu eterno herói faz lembrar que, de fato no fim das contas todo homem mais cedo ou, mais tarde sempre encontra seu lugar secreto. Uns o acham na infância, outros à beira da morte...


Deitado sobre os papéis, em posição fetal ele dormia tranquilo, pois já não se lembraria das horas que o sono ceifou.

Por: Tonny Araujo