A física quântica – o que chamamos de física moderna - elaborou a partir da primeira metade do século XX uma série de postulados que provavam existir matérias bem menores que o átomo – até, então partícula indivisível – como os glúons e quarks. Einstein se chateava com tal teoria, uma vez que mal se conseguira responder por que os átomos não se tocavam. Resultado: teoria da relatividade.
Mas
o problema aqui não é discutir sobre física, números e todas essas coisas das
quais eu, humildemente não sou suspeito em falar. A questão é que do mundo do
cálculo, através da limitação dos números, da crise da física que em quase um
século se constituíra como o cerne das discussões científicas, fora preciso
apelar para as relações entre sujeito e objeto para obter aquilo que a
linguagem numérica e positivista não dava conta, pois desconsiderar a ausência
de consciência no universo – delegando somente ao observador o poder de ser
consciente – era um erro fatal.
Observemos,
por exemplo, o gato de Schrodinger, que está preso em uma gaiola e tem
cinquenta por cento de chance de ser atingido por um material radioativo que
liberado, acionará um gás que o matará dentro de exata uma hora. A questão é
que o gato também tem cinquenta por cento de chance de estar vivo, não é? Por
isso, antes que o observador abra a caixa e daí tire suas conclusões
hipotéticas, o gato não está morto, nem vivo: está morto-vivo.
O
que isso tem a ver com o título do texto? Bom, ainda não explicarei. E para
complicar mais, considere o filme produzido nos anos 90, The Truman Show,
estrelado por Jim Carrey – ironicamente o rei da comédia nesta época – e no
qual representa o papel de Truman, um sujeito que desde seu nascimento fora
selecionado para um programa de TV, que o filmaria até o fim de sua vida. O
problema não estava apenas nas câmeras, é que o mundo de Truman não é real:
todos são atores e tudo é um cenário.
Truman sai de seu estado de profunda ignorância e percebe as falhas daquele mundo
artificial, somente quando uma das atrizes – ao se apaixonar por ele - o alerta
para o que realmente acontecia.
O
filme foi produzido em 98, e se me lembro bem, chegou no Brasil, uns quatro
anos depois. Lembro que este filme não fez tanto sucesso quanto os cômicos O máscara, O mentiroso e Ace Ventura, pelo contrário, até desagradou uma
fatia considerável de fãs do Jim Carrey enquanto comediante.
O
fato é que, o filme é recheado de assuntos filosóficos. Explico: há múltiplos mundos,
assim como na experiência física supracitada. Há o mundo ideal das pessoas que
assistem ao programa de TV e vêm na felicidade artificial de Truman uma quebra,
um escape de uma vida medíocre e limitada – o que seria o mundo real delas. Há
o mundo de Truman, que é artificial, de fato para quem assiste – os observadores
-, mas real para o próprio Truman, enquanto sujeito histórico. Há o mundo dos
atores, que sabem exatamente a diferença do que é real e do que é artificial, e
optam por flertar com as duas dimensões. E por fim, o mundo do grande
observador Christopher – jogo de palavra com o nome Christ – o idealizador do
programa e também diretor. Um ser completamente dependente e viciado em sua
própria criação.
Somos,
na verdade a mistura de todas estes personagens, de todos esses mundos. Quem
nunca achou que fosse o protagonista, ou o principal e mais cruel antagonista
de sua própria vida? Quem nunca pensou ser o seu ponto de vista e suas ações os
determinantes para o destino do mundo?
A
vida no século XXI, em meio à propagação da internet prova como cada vez mais as
pessoas desejam experimentar de novas formas, de novos conteúdos e não apenas
como observadores, mas como objetos clínicos. O padrão mais perfeito de corpo,
ou o mais bizarro, uma cor de cabelo, de olhos diferentes todo mês, uma roupa “fora”
de moda, e aqui vale as aspas porque a moda deixou de ser tão massiva como nos
anos 60 e 70, agora cada um inventa o que quer vestir, é diretor de sua própria
vida. Esse é um ponto positivo e que deve ser louvado. Mas, será que, em um
dado momento não nos viciamos em ter total controle sobre os rumos históricos
que se seguem? E se houvesse a possibilidade de delegar a outrem – e não falo
de um Ser superior – a decisão sobre nossas vidas? Será que faria algum sentido
hoje esse tipo de argumento? Creio que não.
Voltando
para o filme, o seu desfecho é o exemplo fiel de um “clímax”. Truman decide de
uma vez por todas ir até o fim, descobrir o que tem além do cenário, se
libertar daquela vida artificial. É aí, que o aspecto do ator se transforma: as
primeiras lágrimas, o sofrimento. Não há mais a felicidade acima de tudo
pregada no programa. Há também a dramatização daquela tragédia da vida real,
elemento apenas adicionado ao enredo por causa da angústia de Truman, e fator
do qual seria impossível aplicar dentro dos objetivos do programa: vender um
produto perfeito, que levasse felicidade a vidas tristonhas e desacreditadas.
Christopher
tenta impedir que Truman atravesse o mar até chegar ao fim do “set” de
gravação, enviando tempestades e chuvas torrenciais – efeitos audiovisuais –
para dificultar sua empreitada. Mas, a vontade de ser livre é maior e Truman
consegue chegar ao seu destino. Essa, sem dúvida é a parte mais excitante do
filme. O fim do cenário é um céu bem azul, de nuvens branquíssimas. Porém, artificial,
de madeira, com uma longa escada, e uma porta indicando a saída.
Uma
parte do diálogo que se segue, neste momento entre Christopher, como a figura
de Deus se pensarmos bem, e Truman é o seguinte:
-
Truman. Você pode falar. Eu posso te ouvir.
-
Quem é você?
-
Sou o criador de um programa de TV, que leva esperança, alegria e inspiração para milhões
de pessoas.
-
E quem sou eu?
-
Você é a Estrela.
-
Nada foi real?
-
Você é real. Isso foi feito apenas para que fosse observado... ouça-me Truman: não há mais verdades
lá fora do que aquelas que eu criei para você. Verá mentiras, e ilusões... porém, em
meu mundo, você não tem o que temer. Conheço-te melhor do que você mesmo
-
Você nunca pôs uma câmera no meu cérebro.
-
Você está com medo. É por isso que não pode sair. Está tudo bem, Truman, eu
compreendo. Estive assistindo você, sua vida toda. Estava assistindo quando
você nasceu, e quando você deu seu primeiro passo. Seu primeiro encontro, e quando perdeu seu primeiro dente. Você não pode sair, Truman. Sua vida é aqui... comigo.
[ ... ]
O
teórico social Jean-Baudrillard – posteriormente Frederic Jameson e Jean-François
Lyotard - ao cunhar o que chama de “simulacrum”, ou simulacro, aborda de forma
genial como nas veias da post- modern society, a opção pela hiper-realidade se
torna uma constante. Ou seja, não a negação do mundo real, mas a possibilidade
de conectividade entre o real e aquilo que é simulado. Sim, é o que parece: a hiper-realidade, é a linha tênue entre o que é real e o que é irreal. Não há mais relação simbiótica entre o sonho e a realidade. Obter o sonho não é mais um fim, ou um meio, é o meio e o fim, ao mesmo tempo. É um estado sútil no qual o consciente se habitua a digerir apenas as migalhas do desejo, achando ser o suprasumo da realização. Seria mais, ou menos como a metonímia e sua velocidade informativa, em que uma palavra, de forma semiótica, se constitui como a substituta de um sentido mais completo e específico.
Exemplos: Comer Nestlé (bombons, leite etc); Ouvir o disco todo (ouvir as faixas). Percebam que há estrita relação entre o termos genéricos e seu conteúdo particular. Isso acontece da mesma forma na hiper-realidade. Veja o mundo virtual da web, em que uma simples foto no perfil do facebook que mostra uma pessoa sorrindo, faz-nos pensar dificilmente na hípotese dela estar passando por um momento ruim. Faz-se necessário ter muitas informações para que possamos rasgar a barreira da abstração imediata que a imagem nos faz optar. Por isso, há o surgimento de identificações - identidades fragmentárias.
Exemplos: Comer Nestlé (bombons, leite etc); Ouvir o disco todo (ouvir as faixas). Percebam que há estrita relação entre o termos genéricos e seu conteúdo particular. Isso acontece da mesma forma na hiper-realidade. Veja o mundo virtual da web, em que uma simples foto no perfil do facebook que mostra uma pessoa sorrindo, faz-nos pensar dificilmente na hípotese dela estar passando por um momento ruim. Faz-se necessário ter muitas informações para que possamos rasgar a barreira da abstração imediata que a imagem nos faz optar. Por isso, há o surgimento de identificações - identidades fragmentárias.
As identidades, portanto que construímos (o
Eu-trabalhador, o eu-filho, o eu-estudante, o eu-virtual etc.) são
resultados de uma “confusão organizada” entre os conceitos de público e privado,
que emergiram no final do século XVIII, com o advento da modernidade - a burocratização máxima do Estado obrigou o homem a se subdividir. Mas,
também, do ponto de vista de um avanço agressivo nas relações de consumo
possíveis com a reformulação do capitalismo, e da resignificação do consumo, por conseguinte da mercadoria. Não há mais distância entre
sujeito (quem consome) e objeto (o que é consumido). Não somos mais como
aqueles físicos, cientistas: observadores prepotentes e pretensiosamente
objetivos que achavam ser o objeto algo ingênuo e totalmente manipulável. Hoje,
os bens de consumo são praticamente nossos prolongamentos nervosos. A diferença
entre o real e o virtual, ou não real é cada vez menos gritante.
Desta
forma, as duas personagens que traduzem bem esta incapacidade de distinguir o
que real e o que é irreal, no meu ponto de vista são Christopher e Truman.
Enquanto, em um dado momento, um se acha dono do mundo, principal financiador e
diretor do programa, e mal percebe o vínculo viciante que estabeleceu com a vida
artificial de Truman, assim como os outros telespectadores, mas de forma mais
apaixonada, pois está na condição de criador, por outro lado, há o próprio Truman, que deve escolher entre voltar para a ignorância, ou se permitir
viver uma vida de limitações, sofrimento, e de felicidade, embora real,
limitada. Me parece que os artistas, são as únicas criaturas mais conscientes
neste jogo, pois sabem diferenciar o que é, e o que não é real e flertar com as
duas possibilidades de mundo.
É neste ponto, à beira do desfecho, que a trilha sonora ganha um aspecto melancólico, arrepiante, transcendental. É neste ponto, que a atenção se redobra, a sensibilidade se aguça, as lágrimas teimam. É neste ponto, que as circunstâncias se tornam irônicas: da mesma forma que as pessoas que assistem Truman compram uma alegria mercadológica, e agora consomem de sua tristeza, nós, em cima de nossa zona de conforto - o mundo real - também nos emocionamos quando vemos os socos desferidos contra o Céu de mentira; a única oportunidade de um homem em poder ir além de apenas tocar o firmamento, e ainda que seja falso, golpeá-lo com toda a raiva sincera que habita o peito, manchando de suor aquele muro de Berlim celestial.
Truman fez sua escolha: Saiu de uma vida, para começar outra. E como neste poema de Fernando Pessoa chamado A queda, seu mundo mudaria para sempre:
Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Visão que se não pode ver...
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...
É neste ponto, à beira do desfecho, que a trilha sonora ganha um aspecto melancólico, arrepiante, transcendental. É neste ponto, que a atenção se redobra, a sensibilidade se aguça, as lágrimas teimam. É neste ponto, que as circunstâncias se tornam irônicas: da mesma forma que as pessoas que assistem Truman compram uma alegria mercadológica, e agora consomem de sua tristeza, nós, em cima de nossa zona de conforto - o mundo real - também nos emocionamos quando vemos os socos desferidos contra o Céu de mentira; a única oportunidade de um homem em poder ir além de apenas tocar o firmamento, e ainda que seja falso, golpeá-lo com toda a raiva sincera que habita o peito, manchando de suor aquele muro de Berlim celestial.
Truman fez sua escolha: Saiu de uma vida, para começar outra. E como neste poema de Fernando Pessoa chamado A queda, seu mundo mudaria para sempre:
Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali...
Vácuo sem si-próprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Visão que se não pode ver...
Além-Deus! Além-Deus! Negra calma...
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...
Há muito a ser dito, em fim. No
mais, aconselho a todos que leram este texto assistir o filme, pois há
informações que somente a experiência pessoal pode extrair. Este texto está
longe de representar a completude que há entre a imagem, abstração e
compreensão. Mas já que, chegamos ao clímax e precisarei desligar as luzes da
ribalta, prefiro fazer isso com a cena final do filme:
THE END

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